A Humanidade já atingiu marcos importantes a nível de comunicação tais como enviar mensagens de áudio e vídeo para qualquer parte do planeta - de facto, até para além do nosso sistema solar - mas, em plena pandemia, ainda precisamos de sair de casa e utilizar o mesmo espaço que outras centenas de pessoas para exercer o nosso direito de voto.
Uma votação democrática tem que garantir duas propriedades ao voto: a anonimidade e a autenticidade. Na votação física, autenticamo-nos através do nosso cartão de cidadão e a anonimidade é garantida ao juntar todos os votos numa caixa onde não é possível identificar quem o colocou lá. No entanto, caso o objetivo de um indivíduo seja manipular os votos (já entregues pelos votantes) para aumentar os votos num dos candidatos, estas propriedades em nada salvaguardam a qualidade da votação. Para garantir que os votos são contados corretamente, a contagem é feita sob a vigilância de várias entidades. Na eventualidade da corrupção por parte destas, este ataque não é escalável. Uma votação corrupta numa mesa de voto não tem um grande impacto na contagem total.
Todos estes passos e procedimentos servem para garantir a confiabilidade do sistema, sendo essencial e imprescindível numa votação democrática. Se o que nos faz confiar no sistema de voto atual é conhecer e acreditar no processo, o mesmo não pode ser dito a respeito da votação à distância.
Apesar de conseguirmos garantir a autenticidade, através da chave única que está associada ao nosso cartão de cidadão, e a anonimidade, através de algoritmos e mistura de votos, o votante comum, não consegue entender estes métodos. Mesmo que o código utilizado seja disponibilizado para consulta, apenas uma minoria da população está qualificada para o certificar. Sem saber como é que o sistema funciona, quebra-se a confiança com o votante e gera-se um problema enorme para democracia.
Na eventualidade de toda a população conseguir entender o sistema, os ataques informáticos são muito mais escaláveis que os que são possíveis no sistema de voto atual. E não nos podemos esquecer que para enviar estas informações tão sensíveis precisaríamos de utilizar a internet, um sistema acessível por quase toda a gente no mundo e possível de interceptar de infindáveis maneiras. Comparativamente, é como colocar uma biscoito à frente de um cão, sair da sala e esperar que quando voltarmos o biscoito ainda lá esteja, intocado.
A votação à distância ainda é uma má ideia dado que não consegue garantir a propriedade fundamental de uma votação democrática: a confiança no sistema.
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